segunda-feira, 10 de setembro de 2007


O Muro teria caído porque...

Se você tivesse de dar continuidade à frase iniciada no título desta coluna, que escreveria, caro leitor? Imagino que escreveria algo que correlacionasse adequadamente com o que se expressa com “teria caído”, sem esquecer –obviamente – que a conjunção “porque” introduz idéia de causa, razão, explicação, motivo etc.

Em outras palavras, você certamente encerraria a frase com algo que expressasse a provável causa da queda do muro (“teria caído porque não suportaria o peso do que nele fosse encostado, a força das águas por ele represadas etc”.).

Pois bem. O tal “pedaço” de frase não saiu da minha imaginação. É o início desta construção, veiculada num telejornal: “O muro teria caído porque havia infiltração de água”.

Como o leitor já deve ter notado, de uns tempos para cá há um verdadeiro dilúvio de formas do futuro do pretérito no rádio e na TV (e nos jornais também). A causa talvez esteja no receio de processos judiciais etc.

Vejamos o que diz “Houaiss” a respeito de um dos valores do futuro do pretérito: “É usado quando o locutor não quer responsabilizar-se pela informação do enunciado”. O exemplo do “Houaiss” é este: “Os ossos encontrados seriam de um homem pré-histórico”. Com receio de “bancar” algumas informações, ainda não comprovadas, o jornalista apela para o futuro do pretérito.

Talvez seja conveniente lembrar o valor específico do futuro do passado, ou seja, do futuro do pretérito: “Tempo verbal que situa uma ação ou estado no futuro em relação a um momento passado” (“Houaiss”). De fato, o nome desse tempo não caiu do céu. Seu valor específico é mesmo o de indicar o futuro do passado, mas, como qualquer tempo, ele também tem valores periféricos, um dos quais é justamente o de permitir o não-comprometimento do emissor.

Como todo exagero, esse também cansa, enjoa, enfastia, empobrece. Ninguém assume nada de nada. Chega-se a bizarrices deste jaez: “Segundo a delegada, o ladrão teria entrado...”. Porque tanto receio? Se a delegada disse, a afirmação é dela, e não do jornalista, isto é, basta dizer “Segundo a delegada, o ladrão entrou...”. Isso não que de fato o ladrão entrou; quer dize que a delegada afirma que ele entrou.

Mas voltemos ao muro, ou melhor, à informação veiculada (“O muro teria caído porque havia infiltração de água”). Fica-se com a impressão de que o muro não caiu, certo? Mas caiu, e como caiu! O que não se queria assumir era a informação sobre a provável causa da queda do muro (a infiltração de água). Mas o cacoete traiu o redator, que conjugou no futuro do pretérito o verbo que informa o que de fato ocorreu.

Dias desses, um noticiário esportivo informou que “O gol teria sido anulado porque o jogador...”. Mas o gol foi de fato anulado, santo Deus! Sem querer apelar para um trocadilho infame, jogo duro, não?

Se a construção “O gol foi anulado porque o jogador teria tocado a bola com a mão” já e um tanto enjoativa, embora transmita o que se pretende, ou seja, o não-comprometimento, a não-assunção da razão da anulação do gol (a imagem não foi suficientemente clara, ou seja, não foi possível perceber se o jogador pôs a mão na bola), imagine uma que meta os pés pelas mãos (epa!). É isso.


Extraído da Folha de São Paulo do dia 06 de setembro de 2007

Leonardo Braga

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