quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Cinema e o sistema do estrelismo


A sobrevivência do cinema esteve, por um longo período, subordinada à existência do intérprete. Nos primórdios da arte cinematográfica, diante de toda salva de empecilhos, o público e os exibidores desconheciam os nomes dos atores e atrizes, que, por sua vez, eram identificados com as companhias para as quais trabalhavam ou ganhavam destaque pelos personagens que desempenhavam. A curiosidade popular, no entanto, aos poucos exigia uma identidade mais precisa e pontual para com os rostos que iam se tornando familiares na telona. As empresas, então, passaram a pôr nos letreiros de apresentação dos filmes, tal qual nos cartazes de publicidade, os nomes dos atores. Assim, passou-se a divulgar com maior veemência os talentos que protagonizavam o gênero artístico.

No entanto, ainda eram raros os nomes que se destacavam aos olhos do público, e famosos atores e atrizes de teatro, mediante pagamento de altos salários, também passaram a exibir suas atuações nos filmes da época. A conseguinte competição entre os atores teatrais e os originários do próprio cinema fez com que os últimos passassem a reclamar salários à altura dos que eram pagos ao pessoal do palco. Nascia, então, o estrelismo.

Depois de estabelecido esse sistema de estrelismo, os intérpretes sofreram um processo de padronização, sobretudo nos Estados Unidos, e passaram a representar papéis sempre semelhantes por conta da grandiloqüência mercadológica do capitalismo. As estrelas principais ganhavam salários astronômicos, eram isentos de impostos e se tornavam milionários da noite para o dia.

A globalização e a conseqüente corrida imperialista em busca de influências políticas, econômicas e culturais fez com que um padrão de consumo, em todos os âmbitos, se estabelecesse no mundo. O cinema, como meio de comunicação de massa, como arte coletiva, concebido como espetáculo que pode incitar à reflexão e ao mesmo tempo entreter o expectador, passou a ser um importante objeto de influência ideológica e uma forte gama de investimentos no setor começou a ser efetivada.

Coincidência ou não, Hollywood passou a ditar os moldes das produções cinematográficas e, em pouco tempo, já contagiava (como ainda contagia) o mundo com suas baboseiras e disparates estapafúrdios, sempre de modo a induzir, subversivamente (ou mesmo, descarados), o público a consumir seus podres americanismos.

Por mais que o considerem um cruel ditador, responsável por incontáveis atrocidades, por mais que o critiquem por censurar movimentos artísticos em seu país, por mais que o acusem de obstruir a liberdade de expressão, Fidel Castro (não se preocupem, eu também não gosto dele), em sua árdua luta de manter suas rédeas socialistas em Cuba, nunca há de corroborar com a livre entrada de filmes americanos em seu território, nunca há de permitir ao povo cubano tomar conhecimento a respeito dos heróicos moçinhos afrontando o governo, dos luxuosos automóveis desfilando livremente pelas ruas, das extravagantes banheiras regadas a champagne e loiras peitudas, dos soviéticos mal encarados, dos temíveis tanques americanos, das incansáveis batalhas travadas por um ideal. E no fim tudo sempre dá certo.

Bruno Coser

1 Comentários:

Às 10 de setembro de 2007 às 13:18 , Anonymous Anônimo disse...

O mesmo se dá com a história do estrelismo na musica popular. um genio era considerado um genio por seu dominio de linguagem musical, sua inovação tecnica, à partir do rock´n´roll, sobretudo anos 50 em diante, houve semelhante evento ao que narras no cinema. Michael Jackson é Deus, e o Ozzy o anti cristo, e nenhum dos dois saberia explicar pq o modo mixolydio tem a sétima menor com a terça maior, emobora esse conceito seja ligado ao tritono e a gravidade tonal por qualquer aluno de nivel básico em teoria musical, no entanto, essas duas entidades musicais, como as outras legitimadas pela industria e pelo mercado fonográfico, desconhecem não só essa mas quase todas as teorias do universo musical. As artes serem chulas são reflexos de uma cultura fraca, e sem reflexões racionais sobre si mesma, uma cultura passiva diante das nescessidades e demandas que cria sobre si mesma, cultura alienada do pensamento encadeado, não conseguem unir ideias, não conseguem percorrer labirintos lógicos, não conseguem entender Godard, não conseguem entender o Bush, não conseguem entender a evolução ou o big bang, mas entendem que o acumulo de capital é não só justo e honesto, como é o motivo primordial de vida, e caminho implícito de felicidade. se dá ai a ditadura da felicidade, a louvação a juventude, a celebração do Prazer. É melhor, enfim, viver do que ser feliz, pq viver, não pode ser simplesmente felicidade, mas todos os sentimentos humanos, agradáveis ou não. Viver é tambem ter decepções, melancolias, solidões, incertezas, projetos ambiciosos, enfim, a felicidade é um evento raro de se ter plenamente na vida, por isso tão vangloriado, o humano que busca na vida somente a felicidade ou será um simpático educado sorridente, ou seria um religioso quixotesco.
a propagação do mau pensamento é o que vem acontecendo com a veiculação de massa da arte industrial. pensa uma coisa não pelas evidencias que a coisa é, como no caso de se acreditar numa religião. todos sabemos que a maior contradição da religião, não é entre ela mesma em suas diferentes variedades, mas é com a ciencia. a ciencia moderna, sobretudo a biologia, a astronomia e a geologia, neguam a possibilidade da existencia de Deus, ou sequer de uma "força superior", como é o caso de Richard Dawkins, ou de Noam Chomsky. longe disso, a população norte americana ainda é a maior população protestante do mundo, e o numero de evangélicos vem crescendo monstruosamente, e por sequencia a arte evangélica.
há ainda de se lembrar as grandes artes tornadas obsoletas ao publico alvo pela industria, como a poesia, a escultura, o documentario, a dança experimental, a musica atonalista e o improviso instrumental, a arte retórica, o teatro dramático, a grande narrativa de prosa literária... só sobraram coisas mastigadas e digeríveis a ponto de se defecar mentalmente tudo que se digeriu em atitudes cotidianas e em preconceitos implicitos em atos desumanos, presos a noção de felicidade tão propagada pelo feliz e perfeito mundo da publicidade capitalista.

 

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial